Saúde

‘Tirei lições do preconceito’, revela jovem com corpo cheio de manchas

Beatriz Pugliese: fala das cirurgias, do bullyng e, principalmente, respeito Beatriz Pugliese: fala das cirurgias, do bullyng e, principalmente, respeito Edu Garcia/R7

A bióloga Beatriz Pugliese, 23 anos, é uma jovem de sorriso fácil, simpática e muito conhecida em Santa Isabel, cidade paulista a 60 km de São Paulo. A jovem nasceu com praticamente 80% do corpo coberto por manchas e pintas, a chamada Nevos.

O que para alguns poderia ser um problema, Beatriz tira de letra e dá um exemplo de autoestima, coragem e motivação. Mas revela: sofreu bullying e preconceito. Melhor: conseguiu tirar lições e proveito disso. Confira o depoimento dela ao R7:

"O que eu tenho chama-se Nevos, no meu caso ele é gigante e atinge 80% do meu corpo, originalmente. Não tem uma causa específica, não é uma doença hereditária e ninguém mais da minha família tem. É uma produção demasiada das células de pigmentação da pele, o que ocasiona a cor escura, deixando assim marcas bem fortes contrastando com a minha pele branca.

Acho que o maior desafio que tive foi fazer as coisas que eu faço hoje normalmente. Eu tinha muito de medo de não conseguir um emprego, de não conseguir uma vaga pela minha condição. O preconceito ainda é algo alarmante.

Passei por várias situações difíceis e tentei tirar proveito, tirar uma lição, mesmo que às vezes essas situações fossem muito dolorosas. Eu fechava meus olhos e tentava entender a cabeça das outras pessoas. E com isso fui lidando melhor com olhares, piadinhas, perguntas que muitas vezes eram bem inconveniente.

Acho que o mundo está muito fechado atualmente. Vejo tantas propostas para quebrar preconceito, abrir a cabeça, mas quando a situação acontece de verdade, quando é ali, cara a cara, você sente o quanto o preconceito é forte na sociedade. Eu, sentindo isso diariamente, percebi que falar não adianta. a gente tem de bater de frente, por a cara a tapa mesmo.

Honestamente, minha intenção é ajudar aquelas pessoas que infelizmente são mais sensíveis ou que, por qualquer razão, não conseguem se aceitar. É muito triste ver isso. E sabe por quê? Porque quem fez o comentário, quem ofendeu, vai para casa e acabou. Mas quem para quem ouviu aquela ofensa, aquele comentário maldoso… Aí é bem diferente.

Eu já sofri bullying, sim, quando eu estava na escola, acho que no pré. O bullying tem uma proporção muito maior hoje em dia. Antes era piadinha, olhares, risadinha. Acontecia muito, principalmente em excursão, quando juntava várias escolas e ninguém me conhecia.

Onde eu estudava, o pessoal sempre foi muito receptivo comigo. Fiz muitos amigos, que são meus amigos até hoje. Meus pais tentaram lidar da melhor forma, tentaram me instruir para que eu não ficasse tão abalada.

E meus amigos também sempre me trataram da mesma maneira que tratavam as outras crianças. Acho que isso me ajudou, [eles] me fizeram enxergar as coisas da mesma forma que eles.

Todas as pessoas têm as suas particularidades e acho que não devem fazer disso um problema. Ao contrário, é algo seu, único. Nunca escondi minhas pintas por motivo nenhum. Mesmo em situações em que me sentia desconfortável, optava por bater de frente. Sei o quanto é importante não baixar a cabeça e não me render.

Da panturrilha para o corpo

Meu primeiro procedimento cirúrgico foi em 1995, com apenas 1 ano de vida, no Hospital das Clínicas em São Paulo. Eu tenho a maior admiração por todos os funcionários que me acompanham desde sempre.

Inicialmente, eu fazia dois procedimentos ao ano, sempre no período das férias. Isso me poupava um pouco de perder as aulas, provas e atividades. Era feito através de enxerto de pele: os médicos retiravam a pele com Nevos e colocavam um enxerto retirado da minha panturrilha, onde eu tenho mais área doadora. E por ser retirada da perna, o tempo de recuperação era bem longo, pois eu não podia andar por um período longo até cicatrizar.

Eu ia para São Paulo e ficava internada por um mês. Todo o processo de recuperação era realizado em casa. Ficava sem andar, precisava ir ao hospital para trocar o curativo toda semana. Era muito cansativo para os meus pais, que tinham de me levar, e para mim também.

Decidi parar o tratamento quando comecei a trabalhar e a pegar firme nos estudos para ingressar na faculdade. Não cabia mais na minha vida fazer esse tipo de tratamento. E percebi que a minha pele já não me incomodava tanto. Não compensava. Preferi ficar como sou a ter de passar por todo aquele processo doloroso e ainda ficar com cicatrizes.

Não me importa muito a opinião das pessoas. Eu tenho minha família, meus amigos. Eu vivo para mim, para não perder de vista os meus princípios e vi que esse é o melhor jeito.

Como eu me definiria? Eu sou uma pessoa muito intensa, que gosta de conhecer lugar novos, gente nova, de ouvir histórias! A cada situação que passo, tento tirar um ensinamento.

Eu sou uma mulher cheia de sonhos, com muito amor por tudo, levando sentimentos de respeito e ensinando as pessoas a superar preconceitos. A vida é muito mais simples do que a gente pensa, somos nós que complicamos tudo.