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Presidente da Oi diz que é preciso recuperar espaço da concorrência

Sede da Oi no Rio de Janeiro (Foto: Marcos Pinto)Sede da Oi no Rio de Janeiro (Foto: Marcos Pinto)

Após aprovar o plano de recuperação judicial, a Oi trabalha para aumentar seu caixa, hoje de R$ 7,1 bilhões. A companhia já recebeu sinalização positiva do China Development Bank (CDB) para assinar uma linha de financiamento de R$ 2 bilhões para a compra de equipamentos de fornecedores asiáticos. Em entrevista ao GLOBO, Eurico Teles, presidente da tele, lembrou ainda que a venda de ativos será fundamental, com destaque para espaços ociosos da sua rede de fibra ótica e sua empresa de call center em Brasília, além de terrenos, prédios e as operações na África e na Ásia.

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Como a Oi vai elevar os investimentos já em 2018 se a capitalização não será imediata?
Com a aprovação do plano, acreditamos que a companhia voltou a despertar o interesse do mercado. O CDB (China Development Bank), por exemplo, fez uma oferta de linha de crédito de R$ 2 bilhões para a Oi para financiar investimento. No dia da assembleia geral de credores, eles me mostraram um e-mail enviado para a alta administração do CDB recomendando a companhia. O plano aprovado ajuda a conseguir esse tipo de acordo. A Oi é um grande mercado para esses investidores. Em 2018, vamos começar a fazer mais investimentos. Não será um ano de arrumar a casa, mas, sim, de melhora.

A Oi vai investir em quais áreas?
Vamos priorizar o investimento em fibra ótica, na ampliação de cobertura em 4G e na digitalização de processos. A companhia precisa aumentar o investimento em inovação tecnológica. Ficamos um tempo em dificuldade e nos afastamos um pouco da concorrência. Temos que recuperar espaço novamente e colocar a Oi em igualdade com as outras empresas do setor. Vamos elevar de R$ 5 bilhões para R$ 7 bilhões por ano nosso patamar de investimento nos próximos três anos. Temos um caixa de R$ 7,1 bilhões hoje.

E como ficam os investimentos depois desses três anos?
Acredito que em três anos alguma companhia do mercado de telecomunicações internacional vai se interessar pela empresa. Com o plano, a dívida cai de R$ 64 bilhões para R$ 21 bilhões, com pagamento ampliado e carência.

Como estão as conversas com investidores, como a China Telecom?
Eles acompanharam a evolução do processo do plano de recuperação judicial. Mas ainda não apresentaram uma proposta formal. Acredito que, com a homologação do plano, que deve ocorrer entre 60 e 90 dias, os players de mercado vão saber exatamente o que estamos prevendo. Ainda temos um caminho a percorrer. Depois da homologação do plano, temos a conversão de parte das dívidas em ações. É quando entrarão os novos acionistas, que serão os credores que terão suas dívidas convertidas em participação na companhia. Minha visão é que esses fundos vão procurar fazer parceria com algum player internacional que venha a se interessar pela Oi. Eles é que vão fazer essa busca de novos sócios. Mas não vamos ficar parados. Vamos seguir os trâmites previstos. Depois da conversão de dívida, vamos fazer o aumento de capital. Esses procedimentos devem levar de oito a dez meses.

Qual será a composição do novo Conselho de Administração?
Até abril, quando termina o mandato do Conselho de Administração atual, haverá um conselho transitório com nove membros. Se até abril já tiver acontecido a conversão da dívida em ações, os novos acionistas vão escolher os membros do conselho definitivo, que terá 11 nomes. O conselho transitório terá nove membros, dos quais seis atuais, sendo três independentes, dois da Pharol e um do Société Mondiale (do empresário Nelson Tanure). E outros três indicados pelos credores.

O impasse em torno da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) atrapalhou a aprovação do plano de recuperação judicial?
Não atrapalhou. Nós tínhamos noção, assim como os credores, que o governo tinha dificuldade de contar com uma norma, uma medida provisória, que pudesse dar sustentação para que a Anatel aprovasse o plano. A declaração do presidente da Anatel, Juarez Quadros, foi no sentido de que, para ele, para respeitar a governança da Anatel, seria preciso uma lei, uma norma. Foi por isso que ele ficou impossibilitado de votar. A Anatel já vem litigando com a Oi por um bom tempo para tirar o crédito dela do processo. A agência já foi às primeira e segunda instâncias e vai continuar recorrendo. Nós vamos nos defender.

Mas isso é um entrave para a Oi?
Como percebemos que a Anatel ia votar contra, tratamos os créditos do órgão regulador como os de um credor normal, para não criar privilégio. Nesse caso, são as multas que ainda estão em tramitação no órgão regulador, de cerca de R$ 6,1 bilhões. Se o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidir que esses créditos da Anatel ficam dentro da recuperação judicial, o pagamento vai entrar na formato do plano (com carência de 20 anos).

Qual é o desafio com a chegada dos novos sócios?
O desafio é encontrar sócios com visão de futuro. É eles conhecerem a empresa como nós conhecemos, para que a Oi continue crescendo. Acredito que o desafio é eles cuidarem da companhia com o retorno de capital esperado.

Quais ativos serão vendidos?
Nós já relacionamos os ativos que vamos vender, como os que não fazem parte da concessão, como terrenos e prédios antigos. A Oi tem um call center em Brasília, o BTCC, que já tem interessados. Vamos vender espaços ociosos de fibra ótica. Tudo para poder gerar mais recursos. Temos ativos na África e Ásia, como as operações em Angola e Timor Leste. Ampliamos de três para cinco anos o prazo para que os recursos obtidos com a venda de ativos acima de US$ 200 milhões sejam direcionados para os investimentos na companhia. Não temos planos de vender a rede de São Paulo.

Há previsão de demissões na Oi?
Não. A Oi tem cerca de 130 mil empregados diretos e indiretos. Todo ano havia demissões, mas, em 2017, mesmo com a companhia em recuperação judicial, não demitimos, e toda a força de trabalho foi dedicada à melhoria da qualidade e ao atendimento das metas.

Procede a informação de que o senhor teria colocado como cláusula do novo plano ficar cinco anos na presidência da Oi?
Nunca teve isso. Aliás, cinco anos eu não gostaria, pois é muito tempo para mim. Ficou acertado que eu ficaria um ano no comando, enquanto é feita a conversão da dívida em ações, a capitalização. Depois, volto para a área jurídica.