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Opinião: Golpe em Hawilla expôs rede de pagamentos de propinas

J. Hawilla, dono da Traffic J. Hawilla, dono da Traffic AE

O GOLPE

Só dois cartolas mereciam tratamento de chefe de Estado quando desembarcavam em Assunção para os encontros da Confederação Sulamericana, a Conmebol: Julio Grondona e Ricardo Teixeira.

Na luxuosa sede da entidade, os dirigentes de turno tratavam de ocupar as dezenas de mastros com bandeiras da Argentina ou do Brasil para impressionar o visitante da vez.

Pousado o jatinho, Grondona ou Teixeira embarcavam direto na comitiva de luxuosas Mercedes, sem passar pela imigração ou pela alfândega.

O poder se refletia na partilha das propinas: os dois e mais o paraguaio Nicolas Leóz estavam em todas. Recebiam milhões pelos direitos de transmissão de cada edição da Copa América, da Libertadores e da Sulamericana.

Nos bastidores do futebol, diz-se que Teixeira desprezava os contemporâneos de seu sogro, João Havelange.

Não apenas porque Grondona e Leóz frequentemente babavam na gravata, exibindo sinais de senilidade em eventos da Conmebol e da Fifa.

Teixeira considerava os parceiros de propina provincianos. Futebol nunca foi a do cartola brasileiro. Dinheiro, sim.

Grondona, por sua vez, fundou um clube, o Arsenal de Sarandí, do qual hoje seu filho é técnico.

O argentino era das antigas, da lei do silêncio da máfia.

O filho dele, Humberto, não se sentiu nem um pouco constrangido recentemente, quando reagiu aos depoimentos do delator argentino Alejandro Burzaco em Nova York.

Disse, publicamente, que Burzaco, que "cantou as pedras" diante do FBI, nunca mais poderá por os pés na América do Sul.

Por comparação, Teixeira sempre foi discretíssimo. Conhece as manhas da Justiça, dos homens de negócio e, como bom mineiro, sabe construir alianças.

Foi a parceria com o ex-executivo da Nike e ex-presidente do Barcelona, o catalão Sandro Rosell, que colocou Teixeira no centro das decisões do futebol internacional.

Esperto, apesar do desprezo pelos cartolas da antiga, Teixeira nunca deixou de se acomodar com os vizinhos sul-americanos.

Ele herdou do sogro, João Havelange, que tomou dos europeus o poder na Fifa, o mesmo desprezo pelos britânicos que era a marca característica de Grondona.

Essa inimizade histórica tem relação direta com o poder. Não é preciso ser gênio para entender que uma coalizão de sul-americanos, africanos e asiáticos é imbatível nos bastidores do futebol.

O que Teixeira, Grondona e Leóz não esperavam é que uma rebelião surgiria aqui mesmo, nos bastidores da Conmebol.

Colocados para escanteio nos acertos das propinas, dirigentes de federações menos importantes do continente formaram o "grupo dos seis".

Ameaçaram virar a mesa.

O delator brasileiro J. Hawilla batizou a ação deles de "golpe". Foi.

A empresa de Hawilla, a Traffic, detinha todos os contratos da Conmebol.

Hawilla tinha fama de sovina. Comprava os direitos de transmissão por uma mixaria e revendia por uma fortuna.

Seu patrimônio crescia a olhos vistos. Fincou pé nos Estados Unidos e transformou a Traffic numa potência internacional.

Pragmático, Grondona topou fazer com o grupo dos seis um arranjo que lhe interessava.

A Torneos y Competencias e a Full Play, ambas da Argentina, teriam prioridade.

Jogar Hawilla para escanteio passou a ser tramado já nos bastidores da Copa da África do Sul.

Faltava a luz verde de um jogador essencial: a Globo, através de seu executivo Marcelo Campos Pinto, precisava aderir.

A emissora brasileira enfim embarcou no golpe secreto contra Hawilla, com a garantia de que teria os direitos da Libertadores a longo prazo, por um preço camarada.

A norte-americana Fox, já em sociedade com a Torneos e de olho no mercado sul-americano, topou se acomodar com a própria Globo.

Hawilla estava fora do jogo.

Mas, ninguém esperava o que viria a seguir: o brasileiro foi à Justiça contra a Torneos e a Conmebol nos Estados Unidos!

O delator Alejandro Burzaco, chefão da Torneos, não acreditou.

O histórico pagamento de propinas corria o risco de ser exposto ao mundo.

Assustados, os cartolas forçaram um arranjo improvisado: Hawilla desistiu dos processos, a Torneos e a Traffic dividiram o butim.

Surgiu a Datisa, que faria mais ampla distribuição de propinas, contemplando tanto a velha guarda dos mercados mais importantes —Brasil e Argentina — mas também os demais dirigentes regionais do futebol.

Na Holanda, nasceu a T&T, de Torneos e Traffic, que negociaria os direitos da Libertadores para o Brasil com a Globo — de acordo com o delator Burzaco, foi o veículo através do qual a emissora brasileira pagava suas propinas.

Amsterdã era conveniente: ali estava sediada a Globo Overseas, subsidiária da Globo que negociava, por exemplo, os direitos de transmissão das Copas do Mundo.

Tudo, aparentemente, estava resolvido, até que a ira dos Estados Unidos foi despertada pela perda da Copa de 2022 para o Catar.

Não demorou para o FBI descobrir onde estava o elo fraco da corrente das propinas: as empresas de Hawilla, baseadas em Miami.

Parte do suborno, logo descobriram os agentes da polícia federal dos Estados Unidos, passava pelo sistema bancário local.

Ou seja, eles tinham jurisprudência para investigar.

Quando o peixe Hawilla caiu, estava aberto o caminho para puxar os tubarões do futebol sulamericano, os herdeiros de Havelange que são o fiel da balança nas decisões mais importantes nos negócios do futebol.

Homens capazes de inventar uma Copa num país como o Catar, onde no tradicional período do torneio faz 45 graus.

São eles, os tubarões da bola, que agora se debatem num tribunal da gelada Nova York.

(segue)