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Kaká é mais um sonho do garotinho que virou presidente do São Bento

Parceria entre Dias e técnico Paulo Roberto segue na B Parceria entre Dias e técnico Paulo Roberto segue na B Reprodução/Facebook

Qual seria sua primeira atitude se fosse presidente do seu clube de infância? No São Bento, o recém empossado Márcio Rogério Dias, de 39 anos, teve uma ideia tanto ambiciosa quanto improvável: contratar, mesmo sem dinheiro em caixa, o craque milionário Kaká para a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro em 2018, no retorno do centenário Azulão Sorocabano à Segundona.

Porém, diferentemente de outros clubes, Márcio Rogério, ou o 'Dr. Márcio Rogério', não é nenhum tipo de mecenas que pretende investir fortunas para fazer do time campeão. Advogado, ele construiu sua carreira na região de Sorocaba, no interior paulista, onde atualmente é presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). A contratação de Kaká, segundo o mesmo, viria por intermédio de patrocinadores.

“Na realidade é um case, um negócio que pode ser viabilizado. E depois é um jogador de alta qualidade e que se encaixa no perfil do São Bento. Ele está em plena atividade, não é um ex-jogador. Quem não queria ter o Kaká, não é mesmo? Eu achei isso”, explicou Márcio Rogério Dias em entrevista ao R7.

Torcedor de carteirinha do São Bento, Márcio Rogério entrou para a diretoria do clube em 2011, com a missão de analisar processos e dívidas trabalhistas da equipe. Na época o time azul e branco havia sido rebaixado para a terceira divisão do Campeonato Paulista, estava sem dinheiro, afogado em dívidas e viu parte de seu elenco entrar em greve contra salários atrasados. O momento era tão negativo que por pouco o Bentão não encerrou suas atividades.

“Quando assumimos, tínhamos somente a história e a grandeza do nome do clube, cumulado com enxurrada de ações, sem crédito, sem atletas, sem patrimônio e com muitas pessoas dizendo ‘não vai dar certo, vocês são loucos, irão quebrar’. Mas, como muito afinco, dedicação e comprometimento, fomos aos poucos resgatando a credibilidade, devolvendo a autoestima do torcedor e acima disso orgulho de ser São Bento”, escreveu em uma recente postagem nas redes sociais.

Dentro de campo, de fato, a ascensão foi rápida, que já seria um sonho realizado. Após dois acessos consecutivos o clube, que permaneceu durante 29 anos ininterruptos na primeira divisão do futebol paulista, retornou à elite. No primeiro ano na Série A-1, em 2015, terminou na 9ª colocação. No ano seguinte ficou em 5º e consequentemente garantiu uma vaga na Série D do Campeonato Brasileiro.

Sob o comando do técnico Paulo Roberto Santos, o São Bento entrou em campo na Série D após 24 anos sem disputar uma competição nacional e com inúmeras dúvidas — a diretoria chegou a cogitar a participação da equipe no torneio. Porém, novamente o time surpreendeu e conquistou uma vaga na Série C ficando entre os quatro melhores.

O mesmo se repetiu em 2017. Após uma campanha brilhante na primeira fase, quando garantiu o acesso e terminou na liderança do seu grupo, o Azulão garantiu um lugar nas quartas de final e jogou o seu destino na Terceirona contra o Confiança-SE. A data do confronto mata-mata culminou com a véspera da eleição de Márcio Rogério Dias. No entanto, nem por isso o então vice-presidente do clube se furtou em exercer o papel motivacional que cabe aos líderes.

O garotinho virou presidente O garotinho virou presidente Reprodução

“Aos jogadores, acreditem na vitória. Vão sem medo de lutar. Façam da dificuldade a motivação e nela encontrem a oportunidade, porque a volta por cima é resultado de um trabalho sério, que todo o time desenvolveu para chegar até aqui. Força e talento vocês têm”, postou Dias em uma das diversas mensagens incentivadoras que divide em suas redes sociais. “Aos nossos torcedores fiéis, carreguem na mala as esperanças. Apoiem o time até o fim. Precisamos de vocês. Sem essa energia fora de campo, muito certo que as dificuldades seriam maiores. Lutamos e acreditamos por vocês”, completou com a hashtag #AvantiSãoBento, nome da chapa pela qual Márcio Rogério Dias se elegeu presidente.

O lado motivador do dirigente é reforçado pelo lateral-esquerdo Marcelo Cordeiro, capitão e um dos mais experientes jogadores do São Bento. Aos 36 anos, o atleta que teve passagens por Internacional, Vitória, Sport e Botafogo, ressalta o bom relacionamento de Dias com o elenco.

“Nos jogos importantes, ele está sempre no vestiário dando palavras de apoio e incentivo para os jogadores. Ele é bem próximo do grupo, participa das atividades do time, está nos treinamentos. Até esta temporada ele era o vice-presidente e, ao lado do Paulo Roberto [treinador], o responsável direto pelas contratações”, explicou Cordeiro.

“O São Bento é um clube muito sério. Estou na equipe desde 2015 e nunca deixaram de cumprir nada do que foi acordado. Não é um clube para o jogador ficar rico. Mas ali o atleta vai encontrar um bom ambiente de trabalho e ter oportunidade e estrutura para demonstrar o seu trabalho e, quem sabe, no futuro ir para um clube maior”.

Um dos grandes responsáveis pelo acesso à Série C, o meia Giovanni, que foi campeão do mundo com o Corinthians em 2012, atesta a boa estrutura do clube e a forma educada do presidente no tratamento com os atletas.

"O Márcio é uma pessoa muito boa, sempre vinha conversar comigo. Um cara tranquilo e gente boa. Também é um excelente profissional. Tudo que ele falava, ele cumpria. O salário era em dia. Ele entende muito de futebol e de gestão, não é à toa que o time subiu pra Série B em dois anos, e eu não ficaria surpreso caso subissem pra Série A daqui um tempo. É um clube muito organizado com pessoas muito profissionais lá dentro", disse Giovanni.

Kaká na B

Há tempos o centenário Esporte Clube São Bento não tinha tanto destaque no noticiário esportivos quanto nos últimos dias. Se entre as décadas de 1960 e 1980 o Azulão Sorocabano duelou com os grandes da capital, de lá para cá a equipe jogou para perdurar sua história.

Um suposto post do atacante Adriano em uma rede social foi o estopim para recolocar o modesto São Bento em destaque. A mensagem, publicada no início da semana, informava que o jogador estaria negociando com um time do interior paulista, recém promovido à Série B do Campeonato Brasileiro.

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O assunto viralizou na mesma velocidade com que o estafe do Imperador tratou de negar sua veracidade. Mas, para a diretoria do clube sorocabano, foi o suficiente para acender a faísca: por que não contratar um medalhão para o retorno do Bentão à Segundona? Adriano foi descartado, Kaká surgiu como desejo.

A proposta que o clube pretende apresentar ao meio-campista de 35 anos é de um salário fixo, dentro do teto do time (R$ 30 mil), mais a cessão de um espaço na camisa e no calção do uniforme para que Kaká possa negociar e aumentar sua receita.

Apesar de desejar o presente mais caro de sua vida, o presidente deve ver Kaká no São Paulo. O meia, que não renovou contrato com o Orlando City, ainda tem grande identificação com o clube do Morumbi. O jogador ainda não recebeu proposta oficial do Tricolor, mas já tem o nome ventilado por dirigentes do clube, que esperam abrir negociações o mais rápido possível para garantir o ídolo para a próxima temporada. Caso não feche com o São Paulo, Kaká deverá pendurar as chuteiras. O São Bento, ao que parece, será somente sonho de um torcedor que se tornou presidente do clube do coração.

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